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Como o peixe “quatro-olhos” vê acima e abaixo da água

Estudo mostra como o sistema visual dos animais evolui em diferentes ambientes de luz

  • Por: Discovery Channel
  • 27/07/2011
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O peixe “quatro-olhos” nada pela superfície com os olhos abaixo e acima da água. Uma nova pesquisa explica como o peixe vê simultaneamente esses dois ambientes que são bastante diferentes.

A descoberta foi publicada em um edital do Royal Society Biology Letter, ajudando a entender como o sistema visual dos animais, inclusive dos humanos, evolui em resposta à diferentes ambientes de luz.

No caso do peixe “quatro-olhos” (ou Anableps como é conhecido) e incluindo as espécies irmãs A. microlepis e A. dowei, são peixes que possuem olhos grandes.

“O nome ‘quatro-olhos’ origina-se do fato de que cada pupila se divide em duas, uma parte fica acima da água e a outra abaixo” diz autor do estudo Gregory Owens.

Para o estudo, Owens, um biólogo da Universidade de Victoria, e seus colegas analisaram os olhos do peixe focando nas proteínas sensíveis à luz, chamada de opsins visual. Cada um é mais sensível a uma determinada intensidade de luz. Humanos, por exemplo, possuem três opsins visuais sensíveis à luz azul, verde e vermelha. Eles absorvem a luz com intensidades ligeiramente diferentes, o que nos permite enxergar essas três luzes, além de outras.

Os cientistas determinaram que a parte superior dos olhos do Anableps, a parte da pupila que fica fora da água, possui opsins sensíveis ao verde. A parte inferior dos olhos, que ficam abaixo da água, é sensível ao amarelo. Já o olho inteiro possui sensibilidade à luz ultravioleta, violeta e azul.

“Isso nos diz que o Anableps possui maior sensibilidade à luz amarela da água e à luz verde do ar”, diz Owens. “Nossa hipótese é que essas funções combinem a sensibilidade com a luz disponível. A água em que o Anableps vive é geralmente enlameada (florestas de mangues no nordeste da América do Sul) e nestas águas enlameadas, a luz amarela se transmite melhor.”

O sistema visual único permite que o peixe evite o fenômeno problemático “janela de snell”, que ocorre quando você está embaixo da água ao olhar para fora.

Devido à refração da luz na superfície da água, após certo ângulo, você não verá mais o que há fora da água, ao invés disso, verá um reflexo na superfície da água.

Para compensar este problema, outros moradores marinhos, como o peixe-arqueiro, calculam a refração para achar as verdadeiras posições dos objetos que encontram. Os “quatro-olhos” do Anableps permitem que ele veja um ângulo mais amplo.

Esse sistema de visão que associa fora e dentro da água é um estilo de vida que tem um preço, no entanto.  Como já era de imaginar, não é difícil para os predadores perderem um peixe que além de ter olhos grandes, nada ao longo da superfície da água. Mas, o Anableps está sempre a espreita, pois grande área do seu cérebro é dedicada à visão.

Pesquisadores suspeitam que o Anableps somente possua os olhos para adequá-lo ao ambiente externo. Com o tempo, eles acham que o peixe perdeu a sensibilidade à luz verde na parte inferior do olho, ganhando sensibilidade à luz amarela para uma melhor visão aquática, principalmente em águas amarelas enlameadas.

Karen Carleton, professora assistente do departamento de Biologia na Universidade de Maryland, disse que “o que o Dr. Owens e seus colegas estão vendo é bastante razoável”, acrescenta “parece provável que Anableps tenha ‘afinado’ seus olhos para ambas tarefas visuais”.

Shelby Temple da Universidade de Bristol também apoia a nova descoberta, dizendo que eles “acrescentaram outro exemplo de vertebrado que tem potencial de ter sensibilidade espectral diferente em diversas partes do seu campo de visão”.

Ele disse que vários peixes, anfíbios, pombos, outras aves e certos primatas, incluindo os humanos, possuem o que é conhecido como “variabilidade intra”, o que significa que variações na sensibilidade espectral existem em toda a retina, uma área muito delicada, que reveste a membrana sensível à luz no interior do globo ocular.

Temple concluiu, “agora nós só precisamos tentar entender porque tantos animais podem ser sensíveis a diferentes intensidades de luz em diferentes direções”.

Fonte: http://www.msnbc.msn.com/id/43826621/ns/technology_and_science-science/t/how-four-eyed-fish-sees-above-below-water/
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